
Graças a Deus e que a paz de nosso senhor Jesus Cristo esteja com todos nesta tarde em que se reúnem em nome de Jesus. Disse ele que sempre que duas ou mais pessoas se reunissem em seu nome que ele estaria presente. Aqui estamos nós reunidos em nome do profeta da Galiléia, mais um dos muitos profetas que vieram ao seu mundo.
Jesus reconhece que a sua imagem foi deturpada pelas religiosidades doentias, assenhorando-se de seu verbo para criarem dogmas que ele nunca postulou, criarem preconceitos que ele nunca teve. Uma coisa é o Jesus que se acredita que existiu, outra coisa é o Jesus que realmente existiu. Homem capaz de doação imensa de amor, que jamais esperou nada em troca de ninguém e que não fundou religião nenhuma. É mais um profeta dos muitos que vieram ao vosso mundo, assim como Gandhi, assim como todos os povos da Índia e do Oriente tiveram, cada um, os seus avatares a trazerem ao mundo palavras de sabedoria e todos sempre falam do amor incondicional, da disciplina do ego para que se possa encontrar a chamada libertação das coisas materiais que acorrentam o homem ao sofrimento.
O egoísmo está na base de todo sofrimento da humanidade. Todo aquele que sofre sempre acha que sofre mais. Poucos são aqueles que sofrem pelo mundo, que se interessam e que se condoem com a dor do outro, que tiram de si, para que o outro tenha uma vida mais amena. Enquanto o homem só reverenciar a um Deus que vai satisfazer as suas necessidades, essa fé ainda é egoísta. Então que possamos compreender que o nosso papel é libertar-se das amarras do eu e isso passa pela necessidade de libertar-se do julgamento daquilo que não temos compreensão total.
Muitas vezes nos arvoramos como senhores de uma verdade que não dominamos, que não vivenciamos e nos intitulamos de juízes do mundo, mas somos mais amorosos para conosco ou para aqueles com quem amamos ou simpatizamos, quando muitas vezes os erros de um e de outros se equivalem e se equiparam, mas ainda na nossa pequenez, vamos vivendo num mundo onde somente o nosso reflexo nos agrada.
Tal qual o senhor dono de terras que pediu para que seus quatro filhos visitassem a terra distante que ele possuía. Mandou um após o outro em intervalos regulares de viagem. O primeiro quando retornou da viagem disse: “a paisagem é exuberante, existe uma árvore plena de flores e um gramado gracioso que nos convida ao descanso e a paz”. Passou outro e disse: “a paisagem é bela, apresenta-se uma árvore plena de frutos que no entardecer possamos descansar na relva que se faz acolhedora”. Passou outro e disse: “a terra é seca, a árvore está sem folhas, nada há do que se esperar daquele ambiente”. Passou o outro e disse: “apesar de parecer ter sofrido muitas intempéries o terreno se refaz, pequenos brotos nascem de uma árvore ressequida”. Cada filho viu o mesmo lugar, mas experimentou diferentes paisagens de acordo com o entorno onde estavam imersos. Um apareceu no verão, outro no outono, outro no inverno, outro na primavera, representando que cada um estava em um estado emocional e com uma visão diferente, mas disseram ao pai da mesma árvore, da mesma relva, do mesmo ambiente, como que a cada um de acordo com a sua visão. A mesma paisagem pode se apresentar bela e exuberante ou estéril e de onde nada se pode esperar, porque cada um vê aquilo que está não só em seu entorno, mas também dentro de si.
Várias são as faces de uma mesma situação, cabe ao homem entender que tudo aquilo que ele vê na verdade também pode ser um reflexo dele mesmo. O que é a verdade? O que é a inverdade? Cabe ao ser humano fazer da sua inteligência, da sua experiência e do sair de si, colocar-se em vários lugares onde possa estar, para reconhecer vários âmbitos de uma mesma situação, para que evitemos fazer como a mulher que reclamou com o juíz que estava sendo vítima de um vizinho seu e disse atrocidades desse vizinho em todos os cantos aonde ela pôde. Falou mal do seu vizinho no mercado, falou mal do seu vizinho no templo, falou mal do seu vizinho dentro de sua casa, falou mal de seu vizinho nos montes, falou mal de seu vizinho por todos os cantos aonde esteve. Diante do juíz, porque o vizinho reclamou pela sua imagem distorcida e o juíz disse: precisamos estabelecer o que está acontecendo e antes de professar a minha sentença, preciso que esta senhora escreva em um papel tudo aquilo que disse, verdade ou não, do seu vizinho. E ela prontamente o fez e escreveu páginas de tudo aquilo ela disse. Ele disse: “Agora preciso que picote esses papéis em vários outros papeizinhos de modo que caibam debaixo de um grão de feijão”. E assim ela fez. E disse o juíz: “Agora vá a todos os cantos aonde falaste de seu vizinho e espalhe estes papéis”. Ela foi ao templo, ela foi ao mercado, ela foi a igreja, ela foi a todos os cantos, aos montes, dentro de casa e soprou os papéis que se espalharam ao vento. Retornando ao juíz, ele disse: “Agora retorne em cada um desses cantos e cate de volta todos os papéis, para refazeres as folhas que picotastes”. Ela disse: “É impossível fazer isso. O vento se encarregou de espalhar, muitos caíram no rio e se desfizeram, os pássaros levaram para longe, estão perdidos, não consigo realizar a tarefa final que me pedes”. Ele disse: “Pensa então agora tu mulher, porque a mesma coisa fizestes com teu vizinho. Tuas inverdades se espalharam tanto que és incapaz de desfazer o que fizestes, a imagem dele, mesmo que seja provada que seja verdadeiramente boa, está manchada para sempre”. Porque o mal e a inverdade deixam nódoas que nem o tempo desfaz e é assim que acontece quando vemos situações que desconhecemos a partir de uma única observação. Fazemos um quadro precário e acreditamos que seja real.
A verdade não pertence a ninguém, a verdade pertence a Deus, o absoluto. Ele sabe. E cada um dentro de si, reconhece exatamente a verdade do que faz, do que pratica e do que é e isso nos convida a refletir sobre a passagem de Jesus e da mulher adúltera, que sendo acusada de adultério, decidiu-se que seria apedrejada até a morte e vem Jesus se impõe diante da multidão e diz: “Aquele que não tem pecados que atire a primeira pedra”. E foram os mais velhos, os primeiros a saírem do ambiente, reconhecendo que por terem mais idade haviam muitos mais pecados a lembrarem e a confessar do que todos os outros e ninguém atirou pedra alguma. Jesus dirigiu-se a mulher e disse: “Alguém , te acusou?” Ela respondeu: “Não”. Jesus disse: “nem eu te acusarei. Vá e não peques mais”. Diante da autoridade do Nazareno, sabedor de tudo, de sua pureza de alma, aquele que teria condições de exortar a mulher e qualquer um de suas faltas, mas Jesus a isentou de seu passado e deixou que a sua consciência, esta sim, fosse o seu juíz, para que a partir daquele momento pudesse caminhar em caminhos corretos de justiça, de moral e de honra e assim se espera de cada um, aqui presente ou não, mas que esteja debaixo da bandeira da verdade.
Quem somos nós para nos arvorarmos de juízes, se nós mesmos precisamos ser juízes de nós mesmos. Que tenhamos coragem de não sucumbir à vaidade que nos assola e passemos a ser acolhedores. Passemos a entender que é preciso errar para aprender, passemos a entender que precisamos estar unidos para nos fortalecer. Possamos entender que a ninguém cabe apontar o caminho de ninguém. Cada um sabe o seu, mas que todos diante, debaixo de um mesmo teto, de uma mesma bandeira, possamos reconhecer que não há juíz maior do que a própria consciência, esta sim, nos tira o sono, nos tira o apetite, nos tira a saúde, porque enquanto não cumprirmos com nossa consciência, aquilo que precisamos cumprir para nos isentar de nossas culpas, Deus nenhum nos libertará, porque a nossa própria consciência precisa fazer com que caminhemos nos caminhos de luz e de paz. É a consciência própria o nosso maior juíz e com ele precisamos nos entender, a partir do momento em que assumimos as nossas falhas e passamos a seguir o que Jesus orientou, não pequemos mais.
Deixemos de lado toda a nossa vaidade, toda nossa prepotência, que possamos olhar no espelho e nos vermos como seres, que dentro de todo o mundo atribulado, sequioso de paz, recebemos orientações valiosas e precisamos colocar em prática. Porque aquele que possui uma semente e sabe que aquela semente é boa e não planta, está perdendo a oportunidade de semear algo que vai trazer luz ao mundo. Aquele que tem fé, que recebe instruções e que não vive essa fé, é uma ferramenta inútil, é uma beleza que não se expõe, que a ninguém encanta. A fé precisa transformar-se em obras e ela passa principalmente pela obra própria e não a obra que esperamos que os outros realizem. Despir-se de toda vaidade, de toda prepotência se faz imperioso, para que a nossa alma resplandeça e compreenda melhor o nosso papel no mundo.
Temos um ícone a ser seguido e esse foi todo amor e bondade, que possamos estar dignos de estar diante dele a cada vez que oramos, que pedimos para ser remédio aonde há enfermidade, alegria onde há tristeza, luz onde há treva, esse é o nosso papel. Que saibamos merecê-lo.
Graças a Deus.