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Os Orixás: Oduduwa
Falar sobre Oduduwa é falar sobre um “tempo onde os deuses e heróis andavam na terra com os homens”.
Enquanto os demais orixás são comumente cultuados e entendidos apenas em seu aspecto divino, para
entendermos Oduduwa é preciso conhecermos tanto seu aspecto divino como seu aspecto humano pois,
ao contrário dos demais orixás, Oduduwa adquiriu um caráter muito mais histórico do que divino.
Presume-se que Oduduwa tenha vivido entre 2.180 e 1.800 A.C..
Todos os orixás tiveram uma passagem pelo nosso mundo e após fatos heróicos ou divinos não morreram,
mas encantaram-se e retornaram ao orum (céu) deixando para seus descendentes segredos e ensinamentos.
Os mitos revelam que a passagem de um personagem histórico para a condição de orixá dá-se no momento
em que ele, tomado de forte emoção ou por vontade própria, entra na terra. Em nenhum deles a morte
física é relatada seja por velhice ou sofrimento. É uma forma de encantamento que os transforma
em divindades protetoras de determinado grupo e controladora de determinado fenômeno natural.
Esta afirmação nos faz entender que os orixás nada mais são do que ancestrais que foram
divinizados e observando seus mitos verificamos que eles são freqüentemente relacionadas às
atividades humanas.
Oduduwa histórico - Ilê-Ifé a origem do Mundo
Situada na Nigéria, a cidade de Ilê-Ifé é considerada pelos yorubás o lugar de origem de suas primeiras
tribos. Na tradição yorubá, Ilê-Ifé é o "Berço da Terra", é o berço de toda religião tradicional yorubá.
É considerada um lugar sagrado aonde os deuses chegaram, criaram, povoaram o mundo e depois ensinaram
aos mortais como os cultuá-los.
Os estudos históricos demonstram que a origem do povo yorubá deu-se a partir de movimentos migratórios
para a atual região de Ifé. O maior destes movimentos migratórios é conhecido e denominado pelos
estudiosos como a “Migração Oduduwa”. Esta migração foi composta por um povo proveniente das regiões
islâmicas, que em virtude de perseguições religiosas procurava um lugar seguro para manifestar-se.
Eram chefiados por Oduduwa, um líder poderoso, dono de uma forte reputação e com uma personalidade
que a tudo dominava. Por serem um grupo muito grande, dominaram os primitivos habitantes da região.
Com o passar do tempo as duas culturas absorveram-se mutuamente transformando a região em um centro
cultural e artístico de grande expressão, desenvolveram a religião tradicional e Ifé tornou-se uma
cidade sagrada sendo gradualmente reconhecida como o centro da criação. Este processo, entretanto,
não se deu sem a reação e resistência dos habitantes naturais da região.
Naquela região existia o povo Igbò, que era comandado por Obatalá. Obatalá, que mais tarde foi
intitulado Oxalá, era o guardião da moral e preservador da família tradicional. A quebra de alguma
norma exigia a confissão diante dele seguida de uma prescrição de penitências e sua palavra era
incontestável. Oduduwa não reconheceu o comando de Oxalá e progressivamente estendeu seu domínio
na região. Existem relatos de que nesta época houve a formação de uma sociedade secreta chamada
Ogboni, que surgiu como forma de resistência e de proteção das instituições nativas em uma forma
de oposição secreta aos invasores. Contudo, Oduduwa conseguiu se impor espalhando o seu poder e
fundado diversas cidades, entre elas, Ilé-Ifè. Influenciou os costumes, a linguagem e foi pai de
inúmeros reis. Não obstante, houve assimilação mútua entre o elemento novo e o elemento local,
com resultado favorável terminado com o rigor entre as partes opostas. Morreu cego, vítima de
uma doença nos olhos. Após sua morte, tornou-se objeto de um culto ancestral ocupando um lugar
destacado no panteão yorubá. Ao contrário de Oduduwa, Oxalá nunca foi um guerreiro. Ele foi feito
para a paz, para a manutenção da ordem e da vida íntegra. Nos momentos em foi forçado a lutar, o
fez por necessidade impelido por seus inimigos. Foram construídos templos para ambos em Ifé e,
ainda nos dias atuais, quando ocorre a entronização de um rei o seguinte ritual é obedecido:
Ele é proclamado rei no templo de Oduduwa, mas é coroado no templo de Oxalá.
Oduduwa mitológico – a criação do mundo.
Nos parágrafos acima relatamos os fatos históricos obtidos através dos relatos catalogados por
historiadores. Passaremos agora a relatar a origem mitológica do mundo a partir da teologia
yorubana. A cultura africana é essencialmente passada através das gerações de forma oral, o
que inexoravelmente gera deturpações da forma original através do tempo e desta forma, a
sucessão cronológica dos fatos é alterada, os acontecimentos tomam dimensões oníricas onde
fatos históricos se misturam ou são adequados ao entendimento e verbalização dos elementos
daquela cultura.
Conta o mito da criação que Olorum, o ser supremo dos
yorubás que vive num universo paralelo ao nosso conhecido como Orum (céu), resolveu incumbir
Orixalá, (o grande orixá), também chamado de Obatalá, de criar e governar o Àiyé (a Terra,
o nosso universo conhecido).
Olorum entregou a Obatalá a sacola da existência, a
qual continha todas as coisas necessárias para a criação da Terra. Como manda a tradição,
antes de iniciar a viagem Obatalá consultou o oráculo, e este lhe orientou a fazer
oferendas à divindade Exu, mas por alguma razão Obatalá decidiu não efetuar as oferendas
prescritas e partiu para a sua missão, mesmo sabendo de que agindo assim infortúnios poderiam
ocorrer.
Durante a viagem Obatalá sentiu muita sede e ao encontrar um dendezeiro, furou o caule com
o seu cajado e extraiu o vinho de palma. Bebeu tanto que se embebedou e adormeceu.
Preocupado com a demora de Obatalá, Olorum enviou Oduduwa para verificar o que teria acontecido.
Ao encontrar Obatalá adormecido junto ao dendezeiro, Oduduwa retornou com a sacola da existência
para levá-la a Olorum. Este ordenou que Oduduwa completasse a tarefa de criação do mundo.
Antes de partir, Oduduwa consultou o oráculo e fez as devidas oferendas. Enquanto Oduduwa
criava o mundo, Obatalá despertou e dando pela falta da sacola da existência retornou para contar
o ocorrido a Olorum que o repreendeu pela teimosia em não efetuar as oferendas prescritas, proibiu
que fizesse uso do vinho de palma e do azeite de dendê e o fez encarregado de modelar o barro
para a criação dos seres humanos.
Oduduwa criou tudo o que era necessário e delegou poderes
às divindades que o seguiram para governarem a criação. Voltou ao Orum, e só retornaria quando
tudo estivesse realmente concluído. Obatalá, que tinha ficado no Orum com seus seguidores, já
tinha moldado corpos suficientes para povoar o inicio do mundo e foi para o Àiyé, com seus
seguidores, fato que ocorreu antes da volta de Oduduwa para o Àiyé. Quando Oduduwa retornou ao
Àiyé, fundou a cidade de Ilê-Ifé, tornou-se rei do povo yorubano e a cidade se tornou a morada
dos deuses e dos novos seres.
Oduduwa teve muitas esposas e a sua grande descendência deu origem a diversos clãs, que reunidos,
formam o povo yorubá. Os filhos, netos ou bisnetos de Oduduwa, os deuses, semideuses e/ou heróis,
formaram a base da nação yorubá, é por isto que Oduduwa é aclamado como "O Patriarca dos Yorubás".
Oduduwa faz parte de um grupo de orixás conhecidos como orixás funfun (orixás do branco, que se
vestem de branco, orixás da criação), do qual Oxalá faz parte junto com outros orixás. Estes
orixás são os orixás primordiais, aqueles que participaram da criação do mundo e dos seres humanos.
Enquanto Oxalá vibra nos elementos ar e água, Oduduwa tem personalidade mais enérgica e vibra nos
elementos terra e fogo. Muito pouco se sabe a respeito dos elementos e procedimentos a serem
seguidos para o culto a Oduduwa. É um orixá que raramente responde no jogo de búzios e não se tem
relatos de filhos de Oduduwa que entrem em transe. Os antigos costumes orientam que quando uma
pessoa é de Oduduwa, o orixá que é feito é Oxalufan ou Xangô Airá.
Oduduwa está presente nos movimentos migratórios dos homens e dos animais, é o orixá que rege a
busca incessante do homem pela segurança e pelo bem estar, está presente em toda articulação
política e militar, protetor de todos os que sofrem perseguição religiosa e patrono de todos
aqueles que têm como maior arma a inteligência.
É reverenciado na sexta-feira, sua cor é o branco. Suas guias são brancas fechadas com firma
branca com pontos pretos. É sincretisado com Nosso Senhor dos Passos, utiliza as ervas de Oxalá,
porém suas ervas principais são o peregum verde e amarelo e a espada de São Jorge; sua oferenda
consiste em canjica branca enfeitada com cravos da Índia. Apresenta-se como um guerreiro idoso
que apesar da idade ainda empunha a espada. Sua saudação é Oba Orum Oduduwa!
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